sexta-feira, 30 de março de 2018

Um "Andarinho"


Crônicas da vida - Um "Andarinho"






Hoje vou iniciar uma série onde vou narrar fatos da vida que presenciei ou que me contaram e que entendo que tenham algum valor pra vida, afinal aqui nessa blogosfera nossa visão é integral: corpo, mente e espírito e nada como os fatos, as histórias, as percepções reais para nos motivar, nos ensinar, nos conscientizar …


Um “andarinho”


Celestina e seu marido Franscisco, carinhosamente chamados de Tina e Chico, trabalham com pintura de residências e pequenas reformas.

Chico já com 70 anos, todo dia pega sua bicicleta e segue para o local onde está trabalhando.

Tina cuida de detalhes da casa, de gente necessitada, de todo tipo e condição, e depois segue para o local para ajudar o Chico.

Para alguns trabalhos eles contratam ajudantes, dependendo do volume do mesmo e da pressa do contratante.

Certa vez contrataram Mauro, um “andarinho”, assim o chamavam devido à sua pouca formação e até mesmo a um pouco de surdez da Tina.

Chico é meio devagar nas ideias, na percepção das realidades, nas decisões da vida.

Viúvo, antes de conhecer Tina e pai de Paulo que não se preocupa muito com o trabalho. Parece até estar esperando a herança pra viver de “renda” ( o aluguel da propriedade onde moram).


A Mardita!



Mauro ajudou em muitos trabalhos e se tornou “amigo” de Tina e Chico, porém não tinha onde viver ou morar e era usuário de tudo o que muitos que vivem na rua usam: drogas, alcool, etc....

Certa vez Mauro chegou tão “tocado” no trabalho que teve que voltar pra “casa”. Nessa altura Tina tinha providenciado um quarto numa pensãozinha onde Mauro acomodou suas coisas que não eram muitas (uma bicileta, algumas poucas roupas e uma caixa de documentos).

Mas no caminho de casa achou um bar, e existem muitos bares nos caminhos da vida de todos nós.

O bar no caminho de Mauro vendia a mardita cachaça, que é muito boa pra culinária e até para uns goles conscientes (de quem realmente tem consciência), mas muito ruim pra quem talvez até com consciência mas sem esperança, perspectiva, ou com doenças do corpo e da alma utiliza a mardita como fuga, ou outro tipo de explicação que muitos tentam dar.... e poucos conseguem entender.

Bebeu tanto que entrou em coma alcoólica.

Alguém o recolheu ao Pronto Socorro, de lá ligaram pra Tina.

Havia um papel com seu telefone no bolso de Mauro. Tina providenciou internação numa clínica de recuperação e Mauro conseguiu ficar sete meses sem beber!

Voltou a ajudar Chico e Tina nas empreitadas quando necessário, mas depois de um tempo sumiu.

Foi despejado da pensão, por falta de pagamento, embora Mauro se vangloriava de ter uma poupança de dezoito mil. Fala-se que uma mulher o enganou servindo-o de alguma maneira mas ficando com a grana toda.

Mauro voltou a andar, fora do ninho ou no ninho, afinal era um “andarinho”.


O que de sempre às vezes deixa de ser!



Passado algum tempo Tina recebe um telefonema:

  • por favor dirija-se ao Pronto Socorro. O senhor Mauro chegou por aqui com fortes dores e precisa passar por uma cirurgia. Só encontramos um papel com seu telefone no bolso de Mauro. Não encontramos familiares.

Tina pensou ser o pronto socorro da cidade onde morava e com pressa arrumou-se e foi até o PS onde ninguém sabia de nada.

De imediato não passou pela cabeça de Tina que seria na cidade vizinha. Agoniada tentou tudo o que conhecia, mas não encontrou onde estava Mauro.

Chico, como sempre, não ligou o lé com cré e não percebeu a gravidade da situação. Ele conhecia uma irmã de Mauro que morava numa cidade há mais de 500 Km de distância, mas não sabia como acioná-los, nem seus nomes, nem nada....

Certa vez Tina já tinha ajudado Mauro que estava com duas facadas na barriga. Segundo ele era uma tentativa de suicídio, mas ninguém sabe até hoje o que realmente aconteceu. Como sempre Mauro saía bem da situação e voltava para sua vida.

Mas desta vez a história teve um final diferente.

Tres dias depois o telefone toca novamente procurando por Tina:

  • dona Tina, infelizmente o senhor Mauro faleceu e encontra-se no IML.

Depois de uma breve conversa descobriu-se que era na cidade vizinha. Não havia mais o que fazer!

Não para a vida, mas ainda havia algo para a dignidade!

Dignidade




Dignidade é algo que devemos a todos.

Mesmo aos que consideramos indignos!

Mesmo aos que tem trajetos de vida com o qual não concordamos, ou não entendemos, ou que explicamos mas não cabe na razão, porque afinal existem razões que a própria razão desconhece!

Mauro fora órfão de mãe logo aos dois anos de idade e fora criado por essa irmã que Chico conhecera.

Explica? Justifica? Conforta?

Acho que sim e acho que não! Você me entende?

Tina, que sempre dignificou os necessitados, que sempre ajeitou as situações de alguns desprezados, rejeitados, indesejados...dignificou a morte de Mauro.

Foi até o IML. Reconheceu Mauro. Como enterrar alguém sem família? É preciso autorização do delegado.

Foi até a delegacia. Esperou pelo delegado que estava em horário de almoço.

  • O que eu tenho a ver com isso?

Explicou a situação e conseguiu a autorização.

Voltou ao IML. Agora é preciso ir ao serviço funerário.

E como providenciar as coisas sem dinheiro?

O servidor do IML deu o caminho das pedras. Procure fulano de tal....

Caminhou até o serviço funerário. Fulano de tal estava ocupado. O outro disse que custariam setecentos reais!

Desconversou e deu uma volta olhando o preço dos demais “envelopes de madeira”. Tinha um de trezentos e cincoenta e dois reais. Porque será que o homem falara setecentos?

Fulano de tal desocupou-se. Atendeu com respeito e dignidade aquela que buscava dignidade para um “morto indigno”.

  • A senhora quer com flores? Se for com flores só dá tempo pra amanhã. Sem flores a gente pode enterrar agora mesmo. Mas tem que ser agora. Só temos mais uma hora.....

Foi sem flores mesmo. Mas como faço pra chegar ao cemitério?

  • falo com o motorista e a senhora vai de carona!

Dignidade mesmo no carro fúnebre!

Foram ao IML, retiraram o corpo, levaram ao cemitério. Sem flores.

Sem flores? Pera aí......Moço espera um pouquinho.

A floricultura do cemitério estava fechada. Bateu tanto que alguém apareceu.

Um pequeno vazinho de flores.

Segue o enterro. Tina sempre achou tristes aqueles enterros sem ninguém acompanhando e agora lá estava ela numa situação onde era apenas uma conhecida do morto. Uma conhecida que lhe dava agora um último momento de dignidade.

Os coveiros estavam realizando um outro sepultamento e ao perceberem a situação pediram aos acompanhantes deste para ajudarem a carregar o caixão daquele!

Dignidade solidarizada!





No local da cova. Moço, pode abrir um pouquinho só o caixão?

Poder não pode, mas devido à situação.....

Chorando, Tina despetala a flor do vazinho sobre o corpo de Mauro.

  • Seu burro, eu falei pra você ficar longe da mardita cachaça!!!

Dignidade novamente, mesmo em meio a palavras mais duras.

Choro, pela ausência da dignidade, pela indignação diante de situações da vida, mesmo na presença da morte, mas que devolvia dignidade...

Chico não fora junto, não percebera novamente a situação. Tina resolvera, como sempre!

Depois disso uma semana de tentativas para encontrar a família. Finalmente um número de telefone do interior.

Tina foi até uma vizinha que tinha um plano de interurbanos sem custo e ligou.

Alguém atendeu e ao perceber que Tina queria falar de Mauro logo foi gritando:

  • mãe, vem cá. Notícias do tio Mauro!!!

Logo Tina foi falando:

  • ei, não se alegre não que a notícia é ruim!

Depois de explicada a situação a família prometera vir buscar as “coisas” de Mauro. E como não podia deixar de aparecer na história perguntaram a Tina:

  • ele tinha uma poupança né?

Dignidade que o dinheiro não trouxe. Ninguém sabe se o dinheiro existe ou não. Pelo menos não a Tina nem mesmo o Chico, que nem sabe cobrar direito pelos seus serviços.

No dia de voltar ao cartório para pegar a certidão de óbito Tina levou uma cesta de queijadinhas preparadas com esmero. Deu um pouco delas pra cada um que a ajudou no processo.


Dignas queijadinhas promotoras do reconhecimento da dignidade!




Nota: os nomes verdadeiros dos personagens desta história foram alterados para preservar-lhes.... a dignidade.








sábado, 20 de setembro de 2014

O que é a bíblia? Parte 21. No Ar, No Mar (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:





Parte 21. No Ar, No Mar




Alguns de vocês perguntaram sobre inerrância. Se você não está familiarizado com essa palavra, é uma palavra que alguns usam para argumentar que a Bíblia não contém erros. Nos próximos dias vou escrever sobre a ideia de que a Bíblia é a palavra de Deus, inspirada e autoritativa, mas hoje, inerrância.

Meu filho de 13 anos está atualmente fazendo um programa de educação que exige dele ouvir uma certa quantidade de música clássica a cada dia. Então, no caminho para a escola todas as manhãs em vez de ouvir o nosso habitual Blink 182 e rap, ele escuta ... Mozart. Não foi a sua primeira escolha, mas recentemente ele admitiu que tem gostado cada vez mais de música clássica. (Como é que um pai não sorri diante isso?).

Algumas perguntas, então, sobre Mozart:
Será que a música de Mozart ganhou?
Você diria que a obra de Mozart está no topo?
Mozart é o MVP?
Em sua opinião, Mozart prevaleceu?
As músicas de Mozart ganham o prêmio?

Perguntas estranhas, certo?
Elas são estranhas porque não é assim que você pensa sobre a música de Mozart. Elas são as categorias erradas.

Por quê?
Porque o que você faz com a música de Mozart é escutá-la e gostar dela.

O que nos leva à inerrância: não é uma categoria útil. E se você tivesse ouvido falar de Mozart como aquele que ganhou, esses argumentos provavelmente impediriam você de realmente ouvir e apreciar Mozart.

Em primeiro lugar, essa não é uma palavra que a Bíblia usa sobre si mesma. Você pode imaginar perguntar ao apóstolo Paulo se a carta que ele estava escrevendo era inerrante? É importante não impor sobre a Bíblia categorias que a própria Bíblia não reconhece. Os escritores falam sobre a palavra de Deus e inspiração, sobre o sopro de Deus e autoridade, mas eles não mencionam inerrância. Os escritores da Bíblia falam é sobre como os acontecimentos que se desenrolam na história humana real revelam um Deus que age no mundo. Eles estão interessados em que os seus leitores vejam esse movimento e encontrem vida nele.

Em segundo lugar, esse não é o livro que temos. O que temos é uma biblioteca de livros escritos por um número de pessoas num longo período de tempo. Às vezes eles são a favor do divórcio, às vezes eles são contra. Um diz que Jesus era de Nazaré, outro de Belém. Em um lugar está escrito que o destino dos indivíduos está predestinado, em outro todo mundo é livre para escolher. Um diz que Davi pagou X por um pedaço de terra, outro diz que ele pagou Y. Uma história começa com Deus levando Davi a fazer alguma coisa, outro conta a mesma história e diz que Satanás o levou a fazê-lo.

A lista é longa .

Algumas dessas diferenças / contradições são facilmente resolvíveis - um relato foi escrito anteriormente, refletindo essa moeda ou maneira de pensar ou mentalidade, enquanto o relato conflitante foi escrito mais tarde, refletindo a mudança de pensamento que havia ocorrido entre os dois relatos.

Às vezes, o escritor tem uma agenda e está trabalhando em um estilo particular e relatando os eventos de seu tempo de tal maneira, que nós simplesmente não podemos entender o que exatamente está acontecendo no momento em que ele escreve.

Outras vezes temos suposições sobre a história e como ela é registrada que não são compartilhadas pelo escritor e por isso as estamos lendo e tentando descobrir como eles erraram tanto, quando na verdade eles não estavam escrevendo com essa intenção especial em primeiro lugar. (Acreditava-se que o imperador César, no final de sua vida, ascendeu aos céus para sentar-se à direita dos deuses - é por isso que Lucas termina seu livro com Jesus subindo aos céus? ... Para onde Jesus foi? Para o céu? Porque nós já enviamos naves espaciais até lá e ninguém o viu! Haha. Assumimos que Lucas está escrevendo os detalhes reais do que aconteceu, mas quando você volta e percebe que Lucas quer que seu público veja Jesus como Senhor, e não César, então a maneira como ele descreve Jesus ascendendo começa a fazer mais sentido. Nós, modernos, gostamos quando a história é precisa em relação a tempos e datas e fatos reais. É por isso que ainda estamos fascinados com o assassinato de Kennedy - parece que não temos todos os fatos exatos. Mas escritores antigos tinham objetivos diferentes - Lucas não está tentando nos enganar, ele está contando uma história da forma como as pessoas de seu tempo contavam histórias ... ) Mas, por mais que você lide com as estranhezas da Bíblia, se você negá-las ou evitá-las ou agir como se fossem facilmente descartáveis, as pessoas vão fechar suas mentes ou vão parar de ler.

É assim com você?
Ou você adota a linha do partido, o que significa que você tem que deixar o seu intelecto na porta,
ou
você cai fora?

O que me leva a um terceiro ponto - inerrância e argumentos semelhantes têm uma capacidade extraordinária de afastar as pessoas da Bíblia.

Eu já vi isso inúmeras vezes,
você também.

Não se trata de Mozart ganhar, é sobre Mozart ser experimentado pelo som bonito que ele faz. O uso de categorias inúteis sempre vai se voltar contra você. É possível usar tantas palavras e argumentos com relação à Bíblia que as pessoas ficam realmente vacinadas contra seu poder e beleza.

O que me leva ao quarto ponto, que começa com uma pergunta:

Você já aderiu totalmente à teoria das cordas?

Será que ela molda as decisões que você faz todos os dias – desde o que você compra, até como você come e a sua opinião sobre multiversos e como você reagiu ao último episódio de Breaking Bad?

Provavelmente não.

Mas e se a teoria das cordas se provar verdadeira? E se realmente descrever o modo como as coisas são – e então as suas implicações moldarem o comportamento humano de inúmeras maneiras? E se a teoria das cordas tornar-se a forma como vemos o mundo? (Lembre-se, houve um momento em que as pessoas perceberam que a Terra era redonda. Outra hora eles perceberam que a Terra não era o centro do universo. Depois, foi a constatação de que, apesar de serem invisíveis, germes são reais).

Agora, vamos imaginar que essa revolução das cordas aconteça – ela vai negar tudo o que se disse e se fez antes? Será que vamos ler suas mensagens de tumblr antes de se tornar um cordista como o resto de nós e desacreditá-lo? Não, não vamos.

Por quê? Porque você é uma pessoa real, e tudo o que faz e diz vem através de sua muito real humanidade, com suas paixões e sonhos, pensamentos e perspectivas limitadas, e julgamentos precipitados e tudo o mais que faz de você, você. O poder da Bíblia não vem de evitar o que ela é, mas abraçar o que ela é. Livros escritos por pessoas reais, finitas, limitadas, e falhas. Pessoas reais, que vivem em lugares reais, em épocas reais. E não é apenas a sua visão de mundo limitada - uma das afirmações repetidas pelos escritores bíblicos é que nós, como seres humanos, somos pecadores, desde a história de Adão e Eva até o fim, com o Apóstolo Paulo escrevendo sobre como todos nós temos ficado aquém ... nós temos a capacidade tremenda de bagunçar tudo. E a Bíblia chega até nós por meio desses mesmos tipos de seres humanos.

Em quinto lugar, então, ao defender a inerrância se defende um tipo diferente de biblioteca de livros, uma biblioteca que não temos. É importante crescer, evoluir e amadurecer. O fundamental para a maturidade é o discernimento, o reconhecimento crescente de que a realidade não é tão limpa e arrumada e simples como gostaríamos. Inerrância é uma falha em crescer na reflexão sobre a Bíblia. O que temos é uma coleção de histórias e poemas e cartas e contos e evangelhos fascinante, bagunçada, imprevisível, às vezes impressionantemente bela, outras vezes visceralmente repulsiva, que reflete a crescente convicção de que somos importantes, que tudo está conectado e que a história humana está indo para algum lugar.

Como já escrevi antes, para apreciar plenamente a Bíblia, você deve deixá-la ser o que é. E quando você faz isso, você descobre que ela é cheia de vida e surpresa.

O que me leva a uma última pergunta: se algo extraordinário e real e convincente está acontecendo na história humana, de que outra forma poderia ser escrito?

Ou, dito de outra forma: Quando se trata da Bíblia, o que você estava esperando?

Ou, dito de outra forma: De onde é que as pessoas tiraram a ideia de que inerrante é a forma mais elevada de verdade?

Mozart é inerrante?
O pôr do sol é inerrante?
Será que o amor entre você e a pessoa por quem você está apaixonado é inerrante?
A melhor refeição que você já comeu é inerrante?

Em matemática, é ótimo não ter erros,
o mesmo acontece na criação de um carro ou na construção de uma casa que você não quer que entre em colapso, mas a Bíblia tem a ver com Significado. Esperança. Coragem. Inspiração. Alegria. Redenção.

A Bíblia tem a ver com a música.
Música que você não analisa ou discute,
música que você ouve.
E desfruta.




Próximo: O que é a Bíblia? Parte 22 – A Palavra de Deus, Baby.

O que é a bíblia? Parte 20. Questões, questões (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:





Parte 20. Questões, questões



É sexta-feira (nt. dia da publicação original), o que significa que é hora de uma pergunta:

jangosclone:

Acabei de ler a última sessão de sua série sobre a Bíblia e achei muito convincente. Você pode recomendar qualquer leitura adicional sobre este assunto?

Claro.

N.t. As respectivas edições em português encontradas no mercado nacional estão referenciadas e os demais apenas traduzidos os títulos, de forma literal.

Eu recomendo começar com dois livros de Thomas Cahill . Especialmente se você está cansado, desiludido, tentando se desintoxicar de idéias insalubres e inúteis sobre Deus, Jesus, Igreja, etc, que estão girando em torno de sua mente e coração.
Primeiro,
A Dádiva dos Judeus. Como uma tribo do deserto moldou nosso modo de pensar. Editora Objetiva, 1999.(The Gifts of Jews)
e, em seguida,
O Desejo das Colinas Eternas. O mundo antes e depois de Jesus, Editora Objetiva, 2000.(The Desire of Everlasting Hills).

Se você estiver interessado na história e no pano de fundo das escrituras hebraicas, tente os
livros de Bruce Feiler
Pelos Caminhos da Bíblia - Uma Viagem Através do Antigo Testamento. Editora Sextante, 2002.(Walking the Bible)
e
Onde Deus nasceu (Where God Was Born).
(Ele inclui na parte de trás de cada um deles uma extensa lista de referências. Ouro puro lá.).

No que diz respeito a comentários sobre as Escrituras Hebraicas, há um grande, chamado
Os Cinco Livros de Miriam: Comentário de uma mulher sobre a Torá (The Five Books of Miriam: A Woman´s Commentary on the Torah)
por Ellen Frankel
e também há o
JPS Torah Commentary
e
A Bíblia Como ela Foi
por
James Kugel (Que é incrível).


Agora, um pouco sobre Jesus.
Se é nova para você a ideia de que Jesus era judeu e tudo que ele faz é nesse contexto, eu começaria com
Compreendendo as Palavras Difíceis de Jesus (Understanding the Difficult Word of Jesus)
de
Bivens e Blizzard,
depois
As parábolas de Lucas. Editora Vida Nova, 1995. (Poet and Peasant)
de
Kenneth Bailey,
depois
Nosso Pai Abraão (Our Father Abraham)
de
Marvin Wilson,
e depois
Em Busca de Jesus. Debaixo das Pedras, Atrás dos Textos, Paulinas, 2007.(Excavating Jesus)
de
Crossan e Reed
e depois você vai acabar no
Site de Lois Tverberg


que é carregado com uma visão fascinante.

Se você é um pastor, e é tempo de Natal, nem sequer pensar em pregar sem a leitura de A Libertação do Natal (The Liberation of Christmas) de Richard Horsley.

Se você está se perguntando se Jesus existiu mesmo, posso apresentá-lo a um homem chamado NT Wright? Obtenha um livro de sua autoria com Jesus no título, sente-se em uma cadeira confortável, e se prepare para ser incendiado com verdadeiras pesquisas e insights históricos e inteligentes.

Se você tem perguntas sobre a Bíblia semelhante àquelas com as quais eu estive lidando nesta série, eu recomendo Kenton Sparks em seu excelente livro Palavra Sagrada, Palavra Quebrada (Sacred Word, Broken Word).

Agora, um pouco mais pessoal.

Para mim, o capítulo 3 do livro de Dallas Willard, A Conspiração Divina, Editora Mundo Cristão, 2001.(The Divine Conspiracy) mudou tudo.

O trabalho de Robert Farrar Capon me influenciou de inúmeras maneiras, e eu recomendo começar com O Mistério de Cristo (The Mistery of Christ), e depois As Parábolas da Graça (The Parables of Grace).

Jurgen Moltmann escreveu um livro chamado O Espírito da Vida: uma Pneumatologia Integral. Editora Vozes, 2010.(The Spirit of Life).
Eu ainda estou me recuperando.

O livro de Alexander Shaia O Poder Oculto dos Evangelhos (The Hidden Power of the Gospels) é um espanto.

E então algo de Richard Rohr, eu começaria com O Agora Despido (The Naked Now).
Além disso, algo de Frederick Buechner,
começando por
O Alfabeto da Graça (The Alphabet of Grace),
algo de Abraham Joshua Heschel,
começando com
Eu pedi assombro (I Asked Wonder).

O livro de Barbara Brown Taylor
Deixando a Igreja (Leaving Church) é maravilhoso,
e
o livro de Francis Spufford
Sem Apologética (Unapologetic) é o meu livro do ano.

Eu tenho certeza que eu esqueci alguma coisa .
Espero que isso ajude.
Aproveite.




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O que é a bíblia? Parte 19. O verso faz o telhado ir pelos ares (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:





Parte 19. O verso que faz o telhado ir pelos ares





Apertem os cintos de segurança, amigos.

Está escrito no primeiro capítulo da carta do apóstolo Paulo aos Efésios

.. ele nos fez conhecer o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que Deus estabeleceu em Cristo, a ser posto em prática quando o tempo chegar ao seu cumprimento, para trazer a unidade de todas as coisas no céu e na terra sob Cristo.

Espera aí - o quê?
Trazer unidade de todas as coisas?
Todas as coisas?

Primeiro, então, um pouco de grego para os que estão anotando em casa.

A expressão todas as coisas é a palavra pas em grego, e isso se traduz literalmente ... todas as coisas (Eu estou supondo que você pensou que ia ser algo sutil ou profundo, ao contrário, é exatamente o que parece ser …).

Recapitulando um pouco: de acordo com Paulo, nessa passagem, Deus está fazendo algo - algo que envolve todas as coisas - através de Cristo porque isso traz prazer a Deus.

Deus é um buscador de prazer.
É por isso que tudo está de acordo com -
o prazer de Deus.

Deus gosta disso, seja o que for.

Agora, para o seja o que for.

A frase usada para descrever o que Deus está fazendo em Cristo é traduzida aqui como
para trazer a unidade
em outras traduções é
para resumir
ou
para reunir
ou
recapitular
ou
para trazer à tona.

A palavra em grego é anakephalaiossathai. Vamos fazer uma pausa por um momento para apreciar o próprio tamanho dessa palavra. Se você usar essa palavra você não estará brincando. Este é o único lugar em que ocorre na Bíblia, e com ela você pode esmagar seus amigos num jogo de palavras cruzadas.

Ana significa mais uma vez,
Kephale significa cabeça,
assim anakephalaiossathai é trazer as coisas de volta juntas sob uma só cabeça.

(A palavra também tem conexões no mundo antigo com a matemática, descrevendo o que acontece quando você soma vários números).

Dois pontos sobre esta palavra :
Às vezes, como você viu , esta palavra é traduzida como recapitular. Outra palavra para recapitular é recontar. Há uma história que foi contada de uma certa maneira, a partir de um certo ponto de vista, através de uma certa lente - mas então você reconta isso, você recapitula isso, você conta isso de uma maneira diferente.

Quando você reconta uma história, você não remove os pedaços desagradáveis ou os eventos infelizes, você os incluí. Mas ao recontar as coisas, elas aparecem em uma nova luz. Elas são o que são, e quando são recontadas tomam um novo significado e peso.

Lembra quando você foi acampar e choveu o tempo todo e você estava todo molhado e, e então o carro tinha um pneu furado e os guaxinins avançaram em sua comida ... ? (Insira uma história semelhante aqui) Quando você conta essa história anos mais tarde, em um jantar festivo, você a conta com um sorriso em seu rosto, com grande floreio até que todos ao redor da mesa fiquem rindo.

É uma grande história sobre a PIOR VIAGEM DE CAMPING JAMAIS VISTA. Você estava rindo quando sua barraca estava rasgada e cheia de água? Você estava sorrindo quando você percebeu que não tinha roupas secas? Você estava curtindo essa caminhada para a loja de conveniência na chuva, enquanto a fazia?

Não.
Estava uma droga.

E, no entanto, quando você reconta essa história anos mais tarde, você inclui todos os detalhes, porque todos eles contribuem para torná-la uma grande história.

Na verdade, você acentua os detalhes desagradáveis. Não foi só uma chuvinha, foi uma chuva enorme, uma tempestade. Sua irmãzinha não só teve uma dor de estômago por causa dos bolinhos que ela recebeu no posto de gasolina e que ela comeu no café da manhã, almoço e jantar, você acaba nos dizendo como ela vomitou a noite toda na barraca, que estava prestes a rasgar.

O que antes eram as piores partes da história, em sua releitura, tornam-se os melhores trechos.

Agora, de volta ao texto.
De acordo com Paulo, Deus está recontando ... tudo. Suas partes desunidas, fraturadas, quebradas, que foram espalhadas por todo lugar, e traz prazer a Deus trazer tudo de volta à unidade. Em Cristo.

Tudo isso?
Toda a história?
Tudo que cada ser humano já fez?
Por que Paulo usa esta palavra pas, que é intencionalmente expansiva? Porque é que ele inclui o céu e a terra?
Por que ele não colocou alguns limites?
Por que ele não disse coisas religiosas ... ou coisas cristãs ... ou coisas redimidas ... ?
Por que isso é tão descaradamente inclusivo?
Por que ele é tão claro que nada é deixado de fora desse
anakephalaiossathai-mento que Deus está trazendo ao mundo e que dá a Deus tanto prazer?

Com essas questões em mente, observe o que Pedro diz em Atos, capítulo 3:

até que chegue a hora de Deus restaurar todas as coisas

e que Paulo escreve em Colossenses capítulo 1

Deus estava satisfeito …

(Lá está a palavra prazer novamente)

em reconciliar consigo mesmo todas as coisas através de Jesus

(lá está a palavra pas de novo)

as coisas na terra ou coisas no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue, derramado na cruz.

E aqui está Jesus em Mateus capítulo 19

em verdade vos digo, na renovação de todas as coisas …

O que é isso?
Do que eles estão falando?

Restauração, reconciliação, renovação, anakephalaiossathai-ção-
eles são consistentes e persistentes em suas alegações de que o que Deus está fazendo no mundo envolve colocar tudo de volta no lugar, como deveria ser.

Seu coração partido?

Todas as coisas.

Pobreza?

Todas as coisas.

Abuso?

Todas as coisas.

Racismo?

Todas as coisas.

Relacionamentos quebrados?

Todas as coisas.

Todas as coisas.
Todas as coisas.
Todas as coisas.
Todas as coisas.
Todas as coisas.

Segundo Paulo, isto é o que traz prazer a Deus.
Isto é o que Deus está fazendo no mundo.
Isto é o que Deus está fazendo agora.